era uma vez um garoto que adorava planejar. na sua cabeça hiperativa ele antecipava cada passo, previa cada acontecimento, imaginava cada hipótese, investigava cada desdobramento. era com fervor que ele viajava antes mesmo de embarcar nos veículos, visitava cidades antes mesmo de pôr seus pés nas calçadas ladrilhadas, tirava fotos de atrações turísticas antes mesmo de posicionar a câmera na busca pelo melhor ângulo, provava da culinária típica antes mesmo de o aroma irresistível deixá-lo com água na boca. devaneava por prazer, fantasiava por talento nato; era um projetista virtuoso das realidades vindouras.

certo dia, sentado na cama, de mochila pronta, em meio a seus delírios paisagísticos, passeava pelas ruas arborizadas de um recanto do interior, já ocupando cada futura hora com inúmeras atividades. no entanto, esqueceu-se do essencial: para cumprir com sua agenda virtual, precisava embarcar no ônibus da excursão e estar de verdade no tal lugar.

mergulhou tanto nos seus planos que não realizou as ações. perdeu a hora, não subiu no ônibus, não acompanhou a excursão, não esteve no local que tão avidamente imaginara de uma forma que em não muito correspondia com a realidade, e não ficaria sabendo disso por conta própria, tendo de se conformar com o paradoxo de uma solitária jornada inexistente em oposição a um alegre passeio coletivo.