num certo fim de semana, de céu azul e vento acalorado, eles esperavam ansiosos pelo ônibus da excursão que os levaria para passar um fim de semana no celebradíssimo hotel-fazenda da região. a viagem era algo sonhado por todos os alunos daquela escola -- nenhum deles tinha uma família que pudesse pagar as diárias exorbitantes do local, ou que estivesse disposta a investir sua suada renda em dois dias de lazer campestre --, então era totalmente justificada aquela algazarra que se fazia nas costas do portão da escola, devidamente fechado para evitar que a turba mirim se dispersasse bairro afora em sua explosão de energia.

mais justificada ainda se tornava por uma série de outras razões. o passeio era uma espécie de recompensa, pois só se realizava com as turmas de oitava série (hoje nona, quem sabe décima daqui a uns anos); passava-se ao longo de todas os grupos na escola os rumores acerca das loucuras mil que se aprontava lá, da maravilha que era estar livre dos pais por meros dois dias. era um passatempo garantido contar os dias, as horas que faltavam para o dia santo, e conforme se aproximava a data, a ansiedade dos felizardos ia se tornando cada vez mais irreprimível, até eclodir, curiosamente, num silêncio solene e venerável quando, na sexta da alforria, chegavam os carros dos pais trazendo os futuros viajantes.

era uma cena excepcional, a única manhã em que o pátio se silenciava, as bolas de futebol não rolavam. toda vez que desembarcava alguém com uma malinha de viagem ou uma mochila diferente da habitual, cabeças giravam, entreolhavam-se, pareciam até reverenciar por meio de uma mesura desajeitada. eram os escolhidos, aqueles que partiriam para a grande jornada das lendas e mitos passados de geração em geração, e sabe-se lá com que relíquias e conhecimentos e experiências voltariam de sua expedição rumo à terra prometida. era como se fossem astronautas percorrendo a distância entre o comando central da missão e a plataforma de decolagem do foguete, cercados por uma multidão admirada, perdida entre louvar os heróis que representam um planeta e se imaginar no lugar deles.

todos os meninos e meninas da oitava perfilavam-se na entrada da escola, na escadaria que dava acesso ao pátio interno, esperando dar a hora religiosamente marcada para que pudessem se dirigir ao portão oeste, que ligava a parte externa da escola ao estacionamento. lá, sentadinhos nos bancos exclusivamente colocados para essa ocasião, aguardariam a chegada do ônibus ainda dentro do território escolar, e os portões só se abririam quando o veículo parasse e o motorista descesse, autorizando o embarque.
era lá que eles estavam agora, em sua angustiante espera, batendo perninhas, roendo unhinhas, coçando cabecinhas, se concentrando ao máximo para não desobedecer a ordem expressa para permanecer no lugar, sob o risco de não mais integrarem a excursão em caso de rebeldia. havia uns quatro funcionários da escola por ali; um deles guardava o molho que simbolizava a liberdade, os outros três andavam por entre as fileiras de bancos, para lá e para cá, só observando atentamente, chamando a atenção de leve, parando para papear um pouquinho com um ou outro que perguntava coisas típicas do momento: que horas eram, quanto faltava, por que demorava tanto, vai ter lanche na viagem, fica muito longe, quero ir no banheiro.

o do molho era quase um guru espiritual. sempre que as chaves tilintavam, a criançada parava o que estava fazendo para fitá-lo com voracidade. o homem baixinho e gorducho esticava o pescoço o máximo que podia para ver além dos muros em direção à avenida principal, na esperança de ver o ônibus chegando. na negativa, regredia a sua posição de tartaruga e encolhia-se, olhando com pesar para todos, que suspiravam e então retomavam o que quer que estivessem fazendo. o ritual se repetia algumas vezes ao longo do período de espera, e passou a reincidir ainda mais naquela manhã, porque não demorou tanto assim para a hora marcada chegar e passar: o ônibus estava atrasado.

quando as crianças perceberam o movimento confuso de cabeças dos adultos, olhando seus relógios de forma desconfiada, não tardaram a compreender o que acontecia. foi aí que se deu aquela algazarra do começo, as vozes manhosas, os lamentos antecipados, o furdúncio de sonzinhos agudos, exclamações irritadas. haviam esperado oito anos por aquele momento, oito anos era demais, e não estavam tão dispostos assim a conceder licenças para atrasos com aquilo que significava a realização de uma fantasia antiga. não admitiam que pudesse acontecer logo na vez deles, quando o ônibus nunca atrasara nas outras edições.

de dentro das saletas de aula o público já espichava seus corpinhos delgados pelas janelas, a fim de ver o que se passava. já era hora de o ronco ensurdecedor de motor ter preenchido o ar e feito vibrar as vidraças e os lápis das carteiras. já deviam ter escutado o motorista bonachão e sua frase de sempre, os pelinhos do seu bigode se agitando com o ar que saía de sua boca ao verbalizar o convite à alegria, "Vamos lá, criançada, Tio Horácio chegou para o passeio!". por onde andaria Tio Horácio e seu rosto rechonchudo e bigodudo?

por detrás da molecada exaltada surgiu uma figura esguia, trajando uma longa saia florida comportada e uma blusa simples de algodão com mangas curtas. carregava um semblante meio pesado, faces empalidecidas, e ao primeiro som de sua voz todo mundo se aquietou num montinho humano de tristeza. era a diretora, eles reconheceram na hora, e notícia boa não podia ser.

e não era. Tio Horácio ficara doente, não poderia vir buscá-los, e por ter acontecido de forma tão inesperada, não houvera tempo de organizar um plano B, nem havia tempo hábil para isso naquele momento. trocando em miúdos -- isso ela falou olhando diretamente para os monitores, reservando os miúdos para a rapaziada, embora eles já soubessem do que se tratava --, o passeio teria de ser adiado.

todo mundo murchou. nem bem esperaram a diretora terminar de falar, levantaram-se com suas maletas e marcharam, cabisbaixos, de volta ao pátio principal da escola. a criançada que se estendia salas de aula afora parecia sinceramente compadecida da cena, e bateu palmas para tentar animá-los. não seria agora que sairia rumo às descobertas revolucionárias essa missão -- os astronautas voltavam ao centro de comando, derrotados pelo imprevisível; o foguete não decolaria até segunda ordem.

pouco a pouco, a ordem foi restaurada, e a escola voltou a funcionar normalmente, com todos os alunos novamente empoleirados em suas carteiras e prestando atenção nas explicações dos professores, à exceção do grupinho tragicamente desolado na entrada da construção, todos amuados, mudos, desiludidos, esperando seus pais. ganhariam um dia de liberdade contida em suas casas, ficariam imaginando como teria sido a viagem, a parada para o almoço, a chegada em outra cidade, a descida no hotel, a folia por todo aquele terreno, os mergulhos de piscina, cavalos e pedalinhos, comida de fazenda e tudo o mais, deprimidos na espera pela data incerta em que realizariam, finalmente, seu sonho de longa data.

imaginando, imaginando. já estavam imaginando enquanto ali sentados, e começaram a brotar uns sorrisos aqui e ali, uns raiozinhos de sol espantando o chuvisco, e timidamente um começou a perguntar a outro sobre o que faria, como deveria ser, o que será que tinha, e então esse respondia que devia ser assim, que faria tal coisa e que era certeza que tinha aquilo outro lá, e aí um lá do fundo retrucava que não, que era desse outro jeito, e ele podia jurar pela morte da mãe dele porque um amigão tinha ido no ano anterior e descrevera tudo nos mínimos detalhes, e logo uma mais à frente discordava, afirmando que vira fotos na câmera de uma amiga e que a realidade não tinha nada a ver com isso. e se puseram a discutir, a confabular, a inventar, a planejar, a se unir em torno de uma coisa que antes era só um escape individual para cada um, e praticamente erigiram seu próprio hotel-fazenda ali, e saíram pulando pelo pátio, descrevendo suas atrações, montando cavalos imaginários e passeando em pedalinhos vaporosos e comendo bolos de fubá etéreo.

à medida que os pais iam chegando para recolher sua prole, não acreditavam no que viam. haviam jurado, ao sair de casa, que encontrariam seus filhos arrasados, que precisariam não medir esforços para alegrá-los durante o fim de semana indesejado em casa. e olhavam pasmados, boquiabertos, ao vê-los divertindo-se a valer de um jeito como há muito não faziam, ali em pleno pátio, só entre eles, brincando todos verdadeiramente juntos e sem nenhum intermediário, nenhum brinquedo, nada. mais impressionante era nenhum deles querer ir embora, tamanha era a felicidade em que se encontravam.

no fim das contas, nem precisaram de hotel-fazenda algum. reuniram-se pais e filhos numa roda gigantesca na quadra central de futebol e combinaram passar o fim de semana todos juntos, acampando numa praia que ficava a alguns quilômetros de distância da escola. então foram embora, sorridentes, assoviando, batucando nas barrigas, alegres de morrer, prontos para o melhor fim de semana que o imprevisível poderia proporcionar.