em 18 de julho de 2008, madrugada.

quando bebia refrigerante fora de casa, ele sempre usava canudinho. não importava onde fosse, o seu fiel escudeiro alongado estava lá, um tubinho de plástico customizado com adesivos, irreconhecíveis de tão antigos. aliás, outra coisa que ele sempre fazia era soprar com toda força para fazer o líquido borbulhar e assim expulsar o gás ali contido -- para ele, a graça toda não era sentir a língua formigar, a garganta coçar; negócio mesmo era saborear o xarope sem ter a experiência sensorial obstruída por detalhes gasosos.

ninguém sabia ao certo de onde tinha vindo tal canudo, mas era certo que possuía um inestimável valor sentimental. rapaz não se desgarrava do objeto plastificado, levando-o sempre consigo dentro de um estojo para óculos que ele forrou com algodão, um estojo avermelhado que ele carrega no bolso externo de sua pasta universitária. ele, a pasta, o canudo: uma trindade mundana, inseparáveis vértices que simbolizam um cotidiano construído com atividades das mais desinteressantes nos últimos dois anos.

daquela lanchonete de esquina, ele bem se recordava enquanto bebericava seu melado de cola, havia visto uma porção de coisas normais acontecerem todos os dias. brigas de trânsito das mais variadas, homens paquerando mulheres, mulheres estapeando homens, casais conversando sobre a educação dos filhos, amigos compartilhando suas vidas sexualmente ativas, pessoas fugindo da chuva e se protegendo da ventania, pessoas que nunca se viram antes cantando abraçadas. um mundo de relações habituais que era parte do que ele era, parte do que ele havia se tornado: um observador, limitado pela própria inoperância. sua vidinha era uma partícula apassivadora, como ele mesmo costumava pensar -- e ria, baixinho, ao constatar que fazia sentido.

ria nervoso, meio que de vergonha também, mas isso ele não constatava. limitava-se a admirar seu dom para brincadeiras envolvendo jargões gramaticais.

essa sucessão de acontecimentos triviais dos quais ele nem fazia parte era o que constituía sua existência. bizarro concluir que você existe em meio a algo de que você não participa ativamente. uma presença adjunta, que talvez adicione atributos ao significado geral das coisas, mas que é oficialmente desnecessária para sua compreensão principal. ele passava distante, ao fundo, efetivo como os rolos de vegetação seca que anunciavam as cenas de duelo nos faroestes de outrora. as pistolas disparavam por todos os lados, mas ele não tinha mãos para atirar também.

só tinha mãos para mexer o canudo em círculos no seu copo, e segurá-lo enquanto sugava as últimas gotas de refrigerante. aquele barulho irritante despertou-o de seus devaneios. mais uma tarde indiferente ia passando. a mesma gente na rua, carregando sacolas de supermercado, levando mochilas nas costas, empurrando malas com carrinhos, conversando sobre o inverno que nunca parece chegar de verdade. depois de lavar seu canudo, depositá-lo no estojo e guardar este na pasta, pagou pelo refrigerante e saiu para sentir uma tarde ainda fresca, com cheiro de oportunidade.

mas esse aroma ele deixou passar com um levantar de ombros. olhou no relógio; quase dezesseis. precisava voltar para a aula, uma vez que o professor não tolerava falta de pontualidade. quem sabe no dia seguinte ele finalmente tomasse coragem para deixar de ser sujeito oculto -- já antecipando que não, que amanhã as coisas teriam o gosto de hoje, que por sua vez mantinham o gosto de ontem, aquele gosto esquisito de algo que não se sabe se está vencido, mas que se prefere acreditar que não, só por comodidade.