-- me descreve como é, assim? essa sensação?
-- é um desconforto que acalenta. acho que é assim que sinto.
-- isso não tem um valor descritivo muito prático, sabe..
-- queria o quê, que eu usasse camões? até renato russo já fez isso.
ele é bem desse jeito: estranhamente brincalhão, mesmo quando o assunto em questão é uma antítese da comédia. o movimento das pernas, batendo desconcertadas contra o banco, baquetas de um baterista que estuda sem metrônomo; os dedos entrelaçados, indicadores subindo e descendo em círculos, agulhas tecedoras de um suéter feito de linha de oxigênio; a voz delgada e tranquila, de variações harmônicas, uma praticante de yôga que passa de posição a posição com incrível leveza e flexibilidade. cada músculo retesado sugere um esporte diferente, cada suspiro exala uma atividade intelectual variada; é justamente essa hiperatividade congênita que confere um ar humorístico a tudo o que ele faz. impossível observá-lo e não o imaginar fazendo mil coisas ao mesmo tempo.
mas naquele momento havia algo que destoava dessa simpática caricatura que tanto cativava seus amigos. seus olhos, eles não reluziam, sequer giravam incessantemente em busca de um alvo no qual pudessem se assentar. eram dois faróis apagados apontando na estrada banhada pelo anoitecer que era sua face. o opaco que dominava seu semblante desdenhava da energia presente no resto do corpo, e anunciava: no interior desse crânio jaz não um homem, mas uma aparição.
assustava vê-lo naquele estado de torpor. o outro cutucou-o com força usando o cotovelo, buscando despertá-lo:
-- cara, nesse seu estado, eu poderia te colocar ali no calçadão pra trabalhar como estátua viva.
-- é curioso como de vez em quando eu me pego pensando nisso tudo, e por mais estranho que seja, eu sempre reconheço que era o que restava, o que precisava ser feito.
-- mas ainda assim, né?
-- é, exato. que bom que entende. eu não saberia explicar o porquê de eu ainda querer isso.
então sorriu sinuoso, escorregadio como as palavras sem muito lastro que havia acabado de falar. a arte da conversa anafórica era uma cláusula do contrato invisível que regia a amizade dos dois: a transparência verbal não parecia ter lugar numa relação onde contatos telepáticos eram o modo mais freqüente de comunicação. quando conversavam em voz alta, era simplesmente para exercitar as cordas vocais; e, a mando da curiosidade, para ter certeza de que suas vozes não tinham perdido aquele timbre levemente vigoroso que agradava ao telefone.
-- pois é, e eu fico com a impressão de que perderia o entendimento caso você tentasse me explicar.
-- amar alguém pra quem é necessário ficar longe de você implica colaborar na manutenção dessa distância toda. que amor esquisito esse que não reúne, e que parece florescer na repulsão.
-- sacrifícios, né?
-- feitos sem muito pestanejar. que seja feliz -- essa felicidade me arranja um sorriso, que eu tatuo na cara por empréstimo até conseguir um que seja plenamente meu.
e mostrou o presente dessa tal felicidade. fato é que o sorriso parecia mesmo estrangeiro, mas um que estava em processo de adaptação crescente na nova terra. as covinhas nos cantos dos lábios surgiam mais naturais. era embebido na certeza recuperada desse amor inequívoco que ele dissipava a noite e concebia o amanhecer naquela mesma estrada. diariamente, repetidas vezes, ele percorria o mesmo trajeto e chegava à mesma conclusão: não são energéticos, mas sim o amor, que dá asas. então o calor lhe tomava conta das bochechas, e sua aparência fantasmagórica dava lugar ao cara de sempre, o eterno desafiador de definições simples.
-- você ficou bronzeado repentinamente! haha, cê é uma figura.
-- haha, milagres sendo operados, você vê. eu amo, simplesmente. um dia vai dar certo. se o tempo é uma embarcação, aprender a amar pode muito bem ser a chave pra se voltar ao mar.
-- e agora deu pra evocar os poderes mágicos de interpol, é?
-- renato russo que me desculpe, mas sou bem mais o paul banks.
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