the smashing pumpkins - 'by starlight'

fazia algum tempo, talvez tanto que ele nem se lembrava ao certo quanto, realmente. cinco, seis anos. dá para se fazer muita coisa em um período composto de tantos dias assim, não? ter alguns filhos, viajar para vários lugares, construir uma carreira profissional sólida, abandonar um curso de universidade em favor de uma vida nômade e despretenciosamente inesperada. muitas idas ao mercado, algumas delas de olhos fechados, segurando as mãos de alguém que nunca se materializou, mas sempre esteve ali. sempre; até agora, inclusive, depois desses tantos cinco ou seis anos.

aquela última chamada telefônica, ligação para celular jamais atendida, ficou ressonando na memória. um toque interminável, que assumiu diversas formas ao longo dos anos: uma valsinha fosca; um brega pegajoso e arruinado; uma colagem versátil de sigur rós com belle and sebastian; um grunhido anasalado entoando que não estava nem aí, que não sabia, como todo mundo, onde exatamente seus ossos repousariam. era como se o telefone nunca tivesse sido recolocado no gancho -- e até hoje ele esperava ouvir o clique do outro lado da linha, a interrupção do sinal de chamada, o suspiro sutil que precede a voz humanizando a situação.

essa prolongação que borrava a linha entre real e imaginário pregava-lhe algumas peças, principalmente durante a noite, entre o lúcido e o sonho, quando podia sentir que alguém do outro lado finalmente pegava o aparelho para responder aquele telefonema interminavelmente insistente. quantas vezes não acordara estranhamente narcotizado, tateando cegamente em busca do celular, e grudando-o ao pé do ouvido, como se finalmente uma conexão firme tivesse sido estabelecida, e fosse uma questão de tempo alguém do outro lado responder.

todo esse tempo mais tarde -- essas estações todas cada vez mais imprevisíveis por conta das mudanças climáticas, esse curso universitário que chegou feito bola-e-corrente para limitar os movimentos e fazer arrastar um peso que só começou a se desfazer no fim da jornada --, quando ele ficou frente-a-frente com o telefone numa manhã gelada de julho, fez com que ele ponderasse a respeito do que estava prestes a fazer. e o que aconteceria se o telefone tocasse para não ser atendido novamente? que tipo de choque psicológico isso causaria? o que seria dele, da sua realidade, ao ouvir tocar novamente de forma intermitente aquele mesmo telefone, em circunstâncias tão parecidas?

ele se fixava em seus planos, no horário meticulosamente agendado. queria finalmenter concretizar a ligação. ansioso, discou os números com cerca de dois minutos de antecedência para o fim do prazo estabelecido.

e talvez ela estivesse ao lado do telefone, só esperando. ou então foi mera coincidência -- talvez ela estivesse passando para ir tomar um copo de água. certo é que mal-e-mal tocou o telefone, o tão esperado clique interrompeu a sequência monótona de ruídos, e um suspiro meigo antecipou uma voz doce, levemente afetava por um sotaque típico, melodioso, bonito.

a conversa foi só deles, pontuada por um resgate de todo aquele período, e do que veio depois. transcorreu naturalmente, tudo muito amigável, feliz, sorridente, encantador. ao desligarem o telefone, ele se sentiu flutuar, depois deslizar da cadeira e lentamente escorrer para o chão. era tê-la de novo em sua vida o que o fazia mais vivo, e não titubeou quando pegou o telefone mais uma vez para comunicar algo que havia deixado escapar, tamanha havia sido a quantidade de informação da primeira conversa:

-- alô?
-- ah, eu só queria dizer que tô realmente feliz.
-- é, eu também!
-- e olha, aquela música, enfim. você sabe. ela ainda é sua. continua sendo.