"it went the dull and wicked ordinary way
and now i'm sorry i missed you
i had a secret meeting in the basement of my brain"
(the national - 'secret meeting')
and now i'm sorry i missed you
i had a secret meeting in the basement of my brain"
(the national - 'secret meeting')
-- essa aparência de noite que todo dia tem seria de fato interessante não fosse um porém: não enxergo bem no escuro.
eu dizia isso a ela, assim lentamente, destacando cada sílaba com paciência, figurinhas engraçadinhas retratando algum personagem conhecido saídas de um pacote lacrado. deviam ser engraçadinhas, ao menos: ela se ria, assim descaradamente, soprando de volta para mim as sílabas suspensas no ar por uma cola das mais vagabundas. era tão fácil desdizer meus enunciados que, certamente, eu nunca completaria um álbum. provavelmente eles deslizariam pelas páginas e despencariam no chão. auto-colantes uma ova.
aliás, do jeito que as coisas andam, se fossem realmente figurinhas meus enunciados pertenceriam a uma coleção dos ursinhos carinhosos. "coisa mais divertida você, com esse seu jeito pra frases que querem filosofar mergulhando de cabeça numa poça", respondia ela, e ria abertamente. eu amarelava um sorriso.
tem sido assim, de fato. na verdade, eu só queria fazer perceber meu estado de nervos fraturados, esse pequeno mundo de colapso só meu que vem se agigantando cautelosamente. não tenho essa mania de acertar um assunto nas têmporas com um tacape e puxá-lo cena adentro pelos cabelos. prefiro uma abordagem mais teatral, um toque mais fantasioso, maquiagem leve não para cobrir as imperfeições, mas para realçar as belezas. coisa de quem vive mais dentro de si, eu acho: tanto da melancolia do mundo já é tenebrosamente cru; posso ao menos fazer de mim algo menos visceral quando o assunto é comunicar tristezas.
pois quando eu vejo que não dá tão certo, eu penso em mudar. e quando eu não consigo mudar, eu volto a conversar mais comigo mesmo. aí eu chego à conclusão de que, às vezes, não é tão fácil solucionar coisas sem ter como conversar com mais gente do que você mesmo. e então:
-- sabe quando você tem a impressão de que o mundo não pára quando você puxa a cordinha justamente porque o motorista é sádico e gosta de ficar circundando a mesma praça só para ver sua cara de enjôo com o movimento e de desespero com a rotina?
talvez seja meio vazio de significado direto, mas tem toda aquela história da pragmática. eu, particularmente, vejo sentido demais nas coisas; e quando ela me olha sempre rindo, ou quando o pessoal comenta como isso é um jeito tão estiloso de se falar, então eu volto a discutir comigo mesmo, naquele tipo de reunião interna para decidir os rumos da administração da empresa. reunião que sempre demora muito, e que nunca realmente decide. mais toma tempo mesmo.
e numa dessas de tomar tempo para confabular intimamente, passou o ônibus varado pelo ponto e eu nem estiquei o braço. perdi o compromisso. toca o celular depois de 20 minutos: ela do outro lado, furiosa com o atraso, cuspindo fogo de fazer esquentar minha orelha. não é pouco o que ela fala antes de eu ganhar a chance de dizer algo:
-- desculpa.. eu tava em meio a uma reunião pra tentar salvar o empreendimento falido que sou eu mesmo.
eu pude sentir uma mudança de humor, uma tentativa de abafar uma risada que jorrou jovial e inocente, e palavras perdidas que soaram como "ah, mas você não muda mesmo, né?".
nem eu, muito menos todo mundo, aparentemente. vai ver, é mesmo a mecânica do ordinário que regula nossas engrenagens.
eu dizia isso a ela, assim lentamente, destacando cada sílaba com paciência, figurinhas engraçadinhas retratando algum personagem conhecido saídas de um pacote lacrado. deviam ser engraçadinhas, ao menos: ela se ria, assim descaradamente, soprando de volta para mim as sílabas suspensas no ar por uma cola das mais vagabundas. era tão fácil desdizer meus enunciados que, certamente, eu nunca completaria um álbum. provavelmente eles deslizariam pelas páginas e despencariam no chão. auto-colantes uma ova.
aliás, do jeito que as coisas andam, se fossem realmente figurinhas meus enunciados pertenceriam a uma coleção dos ursinhos carinhosos. "coisa mais divertida você, com esse seu jeito pra frases que querem filosofar mergulhando de cabeça numa poça", respondia ela, e ria abertamente. eu amarelava um sorriso.
tem sido assim, de fato. na verdade, eu só queria fazer perceber meu estado de nervos fraturados, esse pequeno mundo de colapso só meu que vem se agigantando cautelosamente. não tenho essa mania de acertar um assunto nas têmporas com um tacape e puxá-lo cena adentro pelos cabelos. prefiro uma abordagem mais teatral, um toque mais fantasioso, maquiagem leve não para cobrir as imperfeições, mas para realçar as belezas. coisa de quem vive mais dentro de si, eu acho: tanto da melancolia do mundo já é tenebrosamente cru; posso ao menos fazer de mim algo menos visceral quando o assunto é comunicar tristezas.
pois quando eu vejo que não dá tão certo, eu penso em mudar. e quando eu não consigo mudar, eu volto a conversar mais comigo mesmo. aí eu chego à conclusão de que, às vezes, não é tão fácil solucionar coisas sem ter como conversar com mais gente do que você mesmo. e então:
-- sabe quando você tem a impressão de que o mundo não pára quando você puxa a cordinha justamente porque o motorista é sádico e gosta de ficar circundando a mesma praça só para ver sua cara de enjôo com o movimento e de desespero com a rotina?
talvez seja meio vazio de significado direto, mas tem toda aquela história da pragmática. eu, particularmente, vejo sentido demais nas coisas; e quando ela me olha sempre rindo, ou quando o pessoal comenta como isso é um jeito tão estiloso de se falar, então eu volto a discutir comigo mesmo, naquele tipo de reunião interna para decidir os rumos da administração da empresa. reunião que sempre demora muito, e que nunca realmente decide. mais toma tempo mesmo.
e numa dessas de tomar tempo para confabular intimamente, passou o ônibus varado pelo ponto e eu nem estiquei o braço. perdi o compromisso. toca o celular depois de 20 minutos: ela do outro lado, furiosa com o atraso, cuspindo fogo de fazer esquentar minha orelha. não é pouco o que ela fala antes de eu ganhar a chance de dizer algo:
-- desculpa.. eu tava em meio a uma reunião pra tentar salvar o empreendimento falido que sou eu mesmo.
eu pude sentir uma mudança de humor, uma tentativa de abafar uma risada que jorrou jovial e inocente, e palavras perdidas que soaram como "ah, mas você não muda mesmo, né?".
nem eu, muito menos todo mundo, aparentemente. vai ver, é mesmo a mecânica do ordinário que regula nossas engrenagens.
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