-- não faz isso, não joga essa casca de banana fora!
-- por quê? vai dizer que você tem alguma utilidade pra isso?
-- tenho sim! pra sua informação, ela serve muito bem como complemento pra massa de bolo.
-- e o que mais vai nesse bolo de sobras? bagaço de laranja, semente de maçã?
-- engraçadinho. pois saiba que bagaço de laranja também serve pra mesma coisa. e eu costumo comer tudo quando chupo laranja.
-- você é doidinha. e faladeira também. vem toda recicladora aí, reaproveitando alimentos fresquinhos, mas quando o assunto é comer um saboroso restê d'ontê, já fica toda alterada.
-- mas também! eu lá vou gastar meu refinado paladar num feijão temperado com geladeira?
-- mais fácil investir numa saladinha de folhas de morango e alimentar a lata de lixo com o macarrão à bolonhesa em cuja quantidade você exagerou ao cozinhar no almoço, certo?
-- mil perdões por eu saber que as propriedades nutritivas dos alimentos não se conservam por tanto tempo e geralmente se perdem à medida que são requentados.
-- e eu também devo desculpas por achar que pratos tão gostosos merecem destino melhor do que o lixo só porque foram acondicionados por mais de 6 horas num lugar que não nosso sistema digestivo.
-- quer dizer que você comeria um risoto ao molho de fungos-de-uma-semana, mas não um bolo de casca de banana.
-- olha como você é exagerada. disse 6 horas, não 6 dias. eu nunca que seria capaz de comer algo que estivesse sorrindo de felicidade pra mim por eu lhe ter proporcionado a liberdade depois de dias trancafiado na geladeira.
-- mas se eu dissesse pra você que fiz essa torta com bagaço de laranja, você deixaria de comer na hora.
-- assim como você certamente deslamberia os beiços caso soubesse que essa lasanha que jantamos agora foi meu almoço de hoje.
-- mas pode ficar tranquilo. até porque a torta nem sequer de laranja é, é de maracujá.
-- já a lasanha é lasanha mesmo, mas não se preocupe, é novinha em folha. os ingredientes, inclusive. tenho a notinha com o horário da compra pra comprovar.
-- não sou tão fresca assim.
-- é, nem eu. o que eu faço com essas cascas de banana?
-- pode jogar fora. perdi a vontade de fazer o bolo pra você, você nem ia comer mesmo. e essa lasanha, o que faço com ela?
-- pode se livrar dela também. fiz pensando em você, mas você praticamente nem comeu agora, e nem vai comer depois que eu sei.
brilho eterno
ele olhou pela janela e viu o sol despencando em direção à terra, lento e imponente, levando consigo o brilho do dia. esticou o braço para fora da janela, como se quisesse coletar uma última centelha de fogo para iluminar a escuridão que logo ganharia forma.
virou para trás e a viu parada junto à porta, cabelos longos recobrindo metade do rosto, braços cruzados avolumando os seios, encostada displicentemente com o ombro esquerdo contra a moldura da porta, naquela posição típica de quem observa uma cena e parece não acreditar muito no que vê.
o olhar dele meio que a atravessou, e ela ficou um pouco indignada com tamanha indiferença da parte dele. ela ficou ali parada, sem mover um músculo, enquanto ele se virou novamente para a janela, colocando para fora as mãos num esforço incrível de tentar estender seus próprios músculos além do limite humano.
no que ele se virou novamente, reconheceu a presença dela no local. ela tentava esconder um sorriso, os olhos brilhavam com uma curiosidade intensa, o corpo relaxou quando percebeu que ele finalmente se dera conta de que ela estava lá. ele sorriu pacientemente, ela retribuiu. e ficaram naquelas carícias gestuais pelo que pareceu um longo tempo, até que ela olhou furtivamente para o relógio e ele despertou do transe induzido pelo choque de sorrisos: estava ficando tarde, estava escurecendo.
ela não se moveu quando ele virou novamente e retomou a tarefa de se alongar em direção ao sol, agora com uma sofreguidão que se demonstrava na forma como ele se colocava na ponta dos pés, e se apoiava perigosamente no parapeito da janela numa tentativa de aproveitar ao máximo todo o limitado espaço físico oferecido. ela só ficou ali, e fechou com força os olhos, e juntou as mãos, entrelaçando os dedos até quase cortar-lhes a circulação. parecia rezar, parecia desejar ardentemente que algo acontecesse, concentrar suas forças junto às dele na realização de um milagre.
antes de reabrir os olhos, teve dificuldades em desatar as mãos, dormentes, que depois formigaram com violência. sentiu um calor intenso emanando de algum canto no quarto, uma luz indubitavelmente celestial fulgurando e anulando a noite que já se instalara lá fora. perdera a noção do tempo, do quanto ficara naquele estado de entrega espiritual. sentiu a cabeça dele roçando-lhe o ombro desencostado, um sussurro que lhe pedia para abrir os olhos. ela os abriu lentamente; nas mãos em concha dele, a primeira coisa que viu, repousava uma fonte de luz inesgotável, um caco do astro-pai. ela ergueu a cabeça e fitou-o longamente, lendo-lhe no semblante uma infinita satisfação. abriu o maior dos sorrisos quando ele, em uma fala entrecortada por longas inspirações devido ao cansaço, disse,
"pode desfazer as malas, meu amor. eu consegui o sol. nosso dia nunca vai findar, então você não vai precisar ir embora quando anoitecer."
virou para trás e a viu parada junto à porta, cabelos longos recobrindo metade do rosto, braços cruzados avolumando os seios, encostada displicentemente com o ombro esquerdo contra a moldura da porta, naquela posição típica de quem observa uma cena e parece não acreditar muito no que vê.
o olhar dele meio que a atravessou, e ela ficou um pouco indignada com tamanha indiferença da parte dele. ela ficou ali parada, sem mover um músculo, enquanto ele se virou novamente para a janela, colocando para fora as mãos num esforço incrível de tentar estender seus próprios músculos além do limite humano.
no que ele se virou novamente, reconheceu a presença dela no local. ela tentava esconder um sorriso, os olhos brilhavam com uma curiosidade intensa, o corpo relaxou quando percebeu que ele finalmente se dera conta de que ela estava lá. ele sorriu pacientemente, ela retribuiu. e ficaram naquelas carícias gestuais pelo que pareceu um longo tempo, até que ela olhou furtivamente para o relógio e ele despertou do transe induzido pelo choque de sorrisos: estava ficando tarde, estava escurecendo.
ela não se moveu quando ele virou novamente e retomou a tarefa de se alongar em direção ao sol, agora com uma sofreguidão que se demonstrava na forma como ele se colocava na ponta dos pés, e se apoiava perigosamente no parapeito da janela numa tentativa de aproveitar ao máximo todo o limitado espaço físico oferecido. ela só ficou ali, e fechou com força os olhos, e juntou as mãos, entrelaçando os dedos até quase cortar-lhes a circulação. parecia rezar, parecia desejar ardentemente que algo acontecesse, concentrar suas forças junto às dele na realização de um milagre.
antes de reabrir os olhos, teve dificuldades em desatar as mãos, dormentes, que depois formigaram com violência. sentiu um calor intenso emanando de algum canto no quarto, uma luz indubitavelmente celestial fulgurando e anulando a noite que já se instalara lá fora. perdera a noção do tempo, do quanto ficara naquele estado de entrega espiritual. sentiu a cabeça dele roçando-lhe o ombro desencostado, um sussurro que lhe pedia para abrir os olhos. ela os abriu lentamente; nas mãos em concha dele, a primeira coisa que viu, repousava uma fonte de luz inesgotável, um caco do astro-pai. ela ergueu a cabeça e fitou-o longamente, lendo-lhe no semblante uma infinita satisfação. abriu o maior dos sorrisos quando ele, em uma fala entrecortada por longas inspirações devido ao cansaço, disse,
"pode desfazer as malas, meu amor. eu consegui o sol. nosso dia nunca vai findar, então você não vai precisar ir embora quando anoitecer."
quando pegou o ovo na geladeira, estava decidido a fazer um omelete. até havia separado os ingredientes adicionais que costumava colocar na fritura: tomate, queijo, presunto.
poucos passos até o fogão foram o bastante para fazê-lo mudar de ideia. isso e a preguiça absurda de voltar até o armário ao lado da geladeira para pegar a frigideira na qual a comida não grudava. em cima do fogão estava a panela pequena, e ele decidiu fazer ovo mexido.
em meio a um rompante de tola traquinagem, teve a ideia de mexer o ovo antes de quebrá-lo na panela; presumidamente para apressar o processo de preparação da comida. sacudiu, agitou, sentiu a substância lá dentro se remexendo e se chocando contra as paredes do ovo, rachou a casca na borda da pia, partiu a casca com cuidado para não derrubar pedaços na mistura que iria se espalhar no fundo da panela que logo seria colocada no fogo brando.
qual não foi sua surpresa ao ver que, no momento do rompimento da casca, não escorreu aquela gosma viscosa habitual, mas despencou na superfície de aço inoxidável, de cabeça para baixo e com um baque surdo, um pintinho que logo se levantou desorientado e se pôs a piar sem cerimônia.
poucos passos até o fogão foram o bastante para fazê-lo mudar de ideia. isso e a preguiça absurda de voltar até o armário ao lado da geladeira para pegar a frigideira na qual a comida não grudava. em cima do fogão estava a panela pequena, e ele decidiu fazer ovo mexido.
em meio a um rompante de tola traquinagem, teve a ideia de mexer o ovo antes de quebrá-lo na panela; presumidamente para apressar o processo de preparação da comida. sacudiu, agitou, sentiu a substância lá dentro se remexendo e se chocando contra as paredes do ovo, rachou a casca na borda da pia, partiu a casca com cuidado para não derrubar pedaços na mistura que iria se espalhar no fundo da panela que logo seria colocada no fogo brando.
qual não foi sua surpresa ao ver que, no momento do rompimento da casca, não escorreu aquela gosma viscosa habitual, mas despencou na superfície de aço inoxidável, de cabeça para baixo e com um baque surdo, um pintinho que logo se levantou desorientado e se pôs a piar sem cerimônia.
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